quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Meu Amigo Vinícius


      Nessas férias decidi fazer algo diferente. Ficar em casa muito tempo parecia uma ideia agradabilíssima durante as aulas, mas esse conceito muda depois de duas semanas convivendo com as mesmas pessoas, tendo as mesmas atividades e até acordar tarde acaba se tornando incômodo. Pra quebrar a rotina fiz duas coisas: comecei a ir na academia com meu pai (sei que isso vai virar rotina, mas a ida até lá acontece as seis horas da manhã, logo é um desafio a cada dia) e me inscrevi no curso de teatro da cidade. É o segundo ano em que fazem esse curso de férias e, pra minha total felicidade, o tema escolhido esse ano foi nosso amigo Vinícius.
      Logo no segundo dia nos deram um poema dele, que eu não conhecia mas foi o necessário para já me dar a vontade de fazer teatro o ano todo e, ao que parece, escrever. Abaixo está o que lemos e interpretamos na aula e, em seguida, o escrito por... mim. (isso soa muito estranho)



                            POEMA ENJOADINHO


Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


                                                                              Vinícius de Moraes





                                          OUTRO ENJOADINHO



Filho... Filhos?
Mais um?!
Melhor não tê-lo
Este já foi um desespero
Mas se não o termos
Como sabê-lo?
Que de consulta
Quanto silêncio
Opa, acordou
Não chore, não chore
Era fome
Comeu, mijou, arrotou.
Filho... Filhos?
E você quer outro?!
Acordar na madrugada
Preparar mamadeira
Anda, dorme!
Acordado a noite inteira
Chama a babá!
Vamos dormir
Descansar, se divertir
Que hoje ela está lá
Filho... Filhos?
Um já está ótimo!
Já está chorando
E mal chegamos
Imagina um bando
Um só e paramos
Filho...Filhos!
Foi isso que ela disse
Chorava e ria
A mão na barriga
Transbordando de alegria
O menino em meu colo
Nada entendia, comigo sorria
Pois eu teria outro filho
E ele um irmão
Eu sabia. Ele sabia.


                                                                Heloisa De Moraes Campanhã
                                     

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O fim da linha

Tem momentos na vida em que se começa a pensar. Estou fazendo certo? É esse o caminho? Ele pode ser mudado depois? E outras infinitas perguntas e problemas, que somente você possui as respostas e soluções.
O meu problema é pior, eu nem ao menos sei quais são as perguntas. Não sei qual é o caminho e muito menos se ele pode ou não ser mudado. Não sei se estou fazendo certo porque não faço nada e não sei o que quero fazer.
Quem sou eu? Não sei. E não saber disso é preocupante, porque meu prazo pra decidir quem vou querer ser está acabando. Como em dezesseis anos de convivência comigo mesma eu consegui não saber nada sobre mim? O que eu fiz nesse tempo?
Prestes a entrar no terceiro colegial, o fim da linha está lá. Todo o tempo na escola, estudando pra conseguir tudo o que queria quando sair da escola...pra no fim, não saber o que quero. Nos anos de ensino fundamental fiz inúmeras coisas, mas nenhuma dela foi parar pra pensar "hey, isso é legal! Legal o bastante pra eu querer fazer pro resto da minha vida!". E parar pra refletir sobre isso só faz perceber que o problema é comigo mesmo, porque mesmo fazendo tudo isso não encontrei nada e não devia ser necessário procurar tanto, esse 'parar pra pensar' deveria ser inconsciente.
Li um texto ontem que me fez pensar sobre tudo isso, se chama "Francisca é puta" de Vinicius Cardoso. Eu invejo Francisca porque ela nasceu puta, ela nasceu sabendo o que queria fazer e fez o necessário para ser boa nisso. Não digo que a escolha dela é a que eu seguiria, mas a linha de pensamento sim. Francisca sabia o que queria e aquilo foi tirado dela. Ela foi transformada em outra pessoa e deixou de ser puta, deixou de ser Francisca. Eu não sou Heloisa. Nunca fui. Tenho que me torná-la ainda e pode ser que eu nunca seja. Como pude eu existir por todos esses anos e nunca ser ninguém?